Da sala para a estrada, como começou a aventura.

Km a km, registo das
5 etapas que criaram esta jornada.

Em imagens: lugares e pessoas, protagonistas da viagem.

1000Km, um carro.
A bordo do novo
Opel Meriva.

A estrada cumpre-se suave pelo meio da floresta. Evitam-se as povoações, importante é o caminho. Sair de Trás os Montes é percorrer um bailado, árvores e água em dança, mais a erva verde que amarelece a cada metro descido. Corre um CD no bólide e a Nina Simone está a dizer que se sente bem. Às tantas, o inferno estival dá cabo da harmonia. Há um incêndio assim que se entra no Minho e um bando de andorinhas foge desorientado, a baixa altitude. Uma delas espatifa-se contra o vidro do carro, duas ou três escapam por pouco. Agora está a tocar The Desperate Ones e isso não pode ser coincidência.

Quando o fumo se dissipa já o caminho se encaminha para a Barragem da Queimadela, meio caminho entre Fafe e Póvoa do Lanhoso. Martinho Torres mora numa casa no final de uma estrada de terra batida, numa aldeia sem nome nem rede de telemóvel. Foi lá que montou o seu negócio: a Neoma, uma editora de livros. Ele tem 37 anos, cabelo comprido, ar de rockabilly. Num instante, confirma o que a aparência anunciara: «Fui músico, toquei em bandas, gravei discos. Mas esse mercado está fechado em Portugal, não aparece ninguém novo há quinze anos, a menos que se mexa bem no meio. Era a minha paixão, mas agora descobri outra, a escrita.» Martinho estudou Línguas, ensinou Português e Francês durante mais de dez anos, mas não gostava da escola. «Estava farto do ensino, desmotivado. Não tanto pelos miúdos, mas por todas as burocracias que os professores hoje têm de fazer e que nada têm a ver com o processo formativo. Então eu pensei se era isso que queria fazer até ao fim da vida. Não era, seguramente.» Em 2003, tinha escrito um livro que acompanhava o CD da sua banda e gostara da experiência. «Queria tornar-me escritor, mas a música já me tinha mostrado que as coisas em Portugal funcionam em circuito fechado. Ou tens uma ideia realmente nova, ou estás tramado. E, há dois anos, tive finalmente uma ideia.»



Fazer livros que também fossem objectos. «Decidi fazer um livro que também fosse um relógio, que se pudesse ler e pendurar na parede. Depois pensei, já que vou fazer um livro que dá horas, então é melhor escrever sobre o tempo.» Acabado esse trabalho, propôs-se ao segundo volume: Reflexos, um livro que também é espelho. Em termos literários estão, nas suas palavras, «entre o fantástico e o ensaístico». Ambos assinados com pseudónimo, Richard Towers, tradução de Torres e Ricardo, o apelido da mulher.



«Arrisquei, mas não me atirei de cabeça», avisa. Pediu um estudo de mercado - «animador» - e encomendou a produção a uma gráfica alemã. Hoje, tem o seu produto colocado em 300 livrarias portuguesas. As coisas correm bem e Martinho Torres, ou Richard Towers, já anda de volta do próximo tomo, um livro que também é tabuleiro de xadrez e vai chamar-se O Desafio. «É um conceito novo e isso vende, pesem as críticas mais conservadoras que oiço. Às vezes, dizem-me que isto é uma perversão literária. A essas pessoas eu respondo que não estou a retirar valor a nada, no máximo estou a acrescentar. Quem critica normalmente não leu, mas é preciso ler para criticar.» E, a propósito disso, larga um conselho. «Se comprarem o livro Tempo, accionem só o relógio depois de terminarem a última página. É que o tique taque pode ser um bocado incómodo.»